O encontro para falar sobre Confiança no Jornalismo e cobertura do Covid-19 promovido pelos grupos de pesquisas Jornalismo, Direito e Liberdade, do Instituto de Estudos Avançados (JDL- IEA), e Núcleo de Estudos sobre a Violência (NEV) contou com a presença — pelo Zoom — da jornalista especializada em saúde Cláudia Collucci, repórter e colunista da Folha de S. Paulo, em 6 de maio.

O objetivo do encontro foi discutir o que se espera da cobertura jornalística sobre o Covid-19, e também da comunicação pública de modo geral no que diz respeito a estabelecer uma relação sobre o tema. Assim, os impactos das “fake news” e do uso de mídias sociais tanto por atores governamentais quanto por leigos no debate público sobre a pandemia, foram levantados, além dos potenciais desafios do jornalismo científico e a comunicação estatal de interesse público diante da crise atual.

A jornalista convidada Cláudia Collucci introduziu o tema observando que no Brasil se discute a pandemia sobre as óticas de questão política face à questão sanitária, humanitária, o que torna a cobertura algo mais complexo.  O negacionismo, principalmente o inicial, da pandemia pelo Governo Federal, cumulado com as divergências sobre isolamento social e o uso do medicamento Cloroquina no tratamento da Covid-19, tornam a guerra contra o vírus mais difícil, frisou a repórter.

Muito tempo se perde pelo impacto das “fake news”, melhor dizendo, das informações equivocadas, fraudulentas, que no Brasil se agravou pelo lançamento incitando o uso da Cloroquina, completa Cláudia, acreditando que a falta de discussão séria, baseada em estudos científicos, trouxe prejuízos à saúde pública, tendo em vista testemunhos de que muito provavelmente pessoas tenham morrido pelo tratamento com Cloroquina, sem a devida prescrição médica.

A jornalista reforçou que, o que se espera em termos éticos na cobertura de pandemias [e de qualquer área da saúde], é que, obviamente, se faça o trabalho com embasamento em dados científicos. Existe demanda do público para que se tenha uma informação mais científica, e isso pode resultar numa oportunidade inclusive para os jornalistas se especializarem. Outra questão de ordem ética que Cláudia aponta é a exposição de pacientes e de prescrições médicas vazadas, prejudicando, muitas vezes, a credibilidade da informação.

Ao ser indagada sobre o uso de metáforas, como “inimigo invisível”, Cláudia ressaltou que as redações dos jornais buscam não fazer uso de metáforas, que, de modo geral, despontam em maior quantidade em artigos opinativos, sendo certo entender que a reportagem jornalística deve evitá-las e se ater às informações.

Cláudia enfatizou que 9 em cada 10 jornalistas disseram que se pautam pela opinião das autoridades públicas, confiáveis. Assim, o jornalismo se empodera.

A mudança no Ministério da Saúde trouxe alterações na exibição diária de informações, como o uso do “placar da vida” e os números de recuperados.  “Os números relativos aos Estados não são mais informados para que possamos fazer a média com os dados nacionais, como fazia o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e deixou de ser feita com o ex-ministro Nelson Teich, o que deixa lacunas”, disse Cláudia. Bom frisar que, até o momento, em plena pandemia, o Ministério da Saúde está sem ministro no comando.

As taxas indicam que a falta de respiradores aumenta o número de mortes, o que não quer dizer, que a doença não é a principal, entretanto, muitos morreram por falta deste equipamento. Cláudia observa ainda que as estruturas psicológicas da população e também dos jornalistas precisam ser observadas, ela inclusive relatou suas crises de ansiedade que se tornaram frequentes à noite, e que isso faz parte de toda essa situação que estamos vivenciando. É aconselhável não acreditar em previsões, mesmo porque ainda não se sabe se o vírus que contagiou uma pessoa pode contagiá-la novamente, tampouco estudos sobre sequelas que a doença possa deixar, ressalta a jornalista, afinal, leu artigos que relatam sobre AVC (acidente vascular cerebral), sequelas no pulmão, entre outros efeitos colaterais deixados pela doença.

Provavelmente, pessoas estão morrendo por terem adquirido H1N1, Zica, dentre outros, e que certamente esses dados são prejudicados, tendo em vista que poucas necropsias estão sendo feitas nesse período, alertou.

Cláudia observou que em todas as pandemias enfrentadas pela sua cobertura, em nenhuma delas houve tamanho negacionismo por parte dos governos, como está ocorrendo no Governo Federal atual. Reafirmou novamente que faltam dados de transparência, inclusive por Estados que estão atuando de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em São Paulo, apontou que, a princípio, não tiveram dados da quantidade de leitos de UTI existentes, e que muito provavelmente os dados da disponibilidade de leitos particulares para a população não foi feito prontamente pelos governos estaduais face a postura do Governo Federal que atua querendo amenizar o problema.

Sem levar em consideração as instalações médicas existentes nos hospitais particulares, tal situação pode ter ensejado na construção de hospitais de campanha, o que leva em gastos públicos maiores, tendo em vista que o hospital de campanha (Pacaembu, Ibirapuera etc.) precisa ser equipado, inclusive estruturalmente.

Conforme a jornalista, diante de sua experiência, percebe que as requisições de leitos particulares deverão ser feitas entre municípios, Estados e pelos próprios hospitais, que, muito provavelmente o Governo Federal não invocará instituições de direito constitucional para que esses leitos possam servir a população.

Cláudia também entende que a quebra de patente sobre possíveis medicamentos que possam auxiliar no tratamento da doença, não aconteça, também por conta da postura do Governo Federal, mas ressalta que os Estados, mencionando Pernambuco e Espírito Santo, são Estados que melhor trabalham a divulgação de dados para a realização do trabalho do jornalista.

Entre idas e vindas, Cláudia Collucci está na Folha desde 1990 (direto desde 1997). Já trabalhou nos cadernos regionais, em Cotidiano e na editoria de Treinamento. É mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós-graduada em gestão de saúde pela FGV.

 Por Débora Chabes

Foto do destaque de Marcos Santos. USP/ Imagens
Assista ao vídeo do encontro do dia 6 de maio

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