Bruno Paes Manso

São as primeiras horas da madrugada em uma semana normal que se inicia no Brasil. Agosto, dia 21, segunda-feira, três da manhã. Em Acrelândia, uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, no Acre, Antônio Jair da Silva Araújo, de 22 anos, discute com outro homem enquanto bebe. Ele e o colega de copo batem boca. Araújo é esfaqueado e depois levado ao Pronto Socorro, onde morre. O agressor, emocionalmente explosivo, embriagado, foi preso em flagrante.

Na mesma hora, na zona rural de Penedo, em Alagoas, outro ponto vermelho se acende no mapa. Na cidade histórica da região do Baixo São Francisco, Renaldo Silva dos Santos, de 39 anos, ouviu um barulho do lado de fora de casa. A mulher e o irmão estavam dormindo. Quando foi ver o que era, recebeu um tiro. O assassino fugiu.

O mundo gira e as horas vão passando. As notícias não param: Lava Jato, Michel Temer, Campeonato Brasileiro, crise na Venezuela, Donald Trump. Poucos prestam atenção nos conflitos cotidianos daquela segunda-feira.

Ainda de madrugada, em Pojuca, na Grande Salvador, Rafael e Willian são executados. Quando amanhecia, em São Lourenço da Mata, em Pernambuco, o corpo da menina Gabriela, de apenas 18 anos, amanhece no canavial. Também de manhazinha, em Belo Horizonte, um policial reage a um assalto e mata Jean Carlos Amaro, de 25 anos.

Antes da hora do almoço, mais de 50 mortes violentas já haviam ocorrido no Brasil. No final do dia, 148 pessoas tinham sido assassinadas. Ao longo de sete dias, entre 21 e 27 de agosto, 1.195 vidas são perdidas em grande velocidade, numa média de oito homicídios por minuto.

Para compreender como roda essa engrenagem, uma equipe de mais de 230 profissionais, em 44 redações regionais do Portal G1, espalhadas por todas as 27 unidades da federação, iriam às ruas com a pretensão de registrar todos os casos de homicídios ocorridos no país naquele período.

Era o primeiro esforço para montar um Monitor da Violência, a partir de uma parceria da equipe do G1 com pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O projeto surgiu depois de encontros que começaram em maio, com discussões sobre formas de se cobrir a violência além do eixo Rio-São Paulo, chamando a atenção para o crescimento da violência que assola nos últimos anos diversos estados brasileiros, principalmente no norte e nordeste do Brasil.

Na terça-feira, dia 22 de agosto, Jeferson Pereira Lima, de 26 anos, foi espancado por vários colegas de cela no Presídio Regional de Feira de Santana, na Bahia. Não se soube os motivos. Os conflitos entre gangues prisionais, que explodiram no começo do ano e provocaram 115 mortes em penitenciárias de Manaus, Roraima e Rio Grande do Norte, continuavam a ocorrer pelo Brasil, só que agora no varejo, longe dos holofotes do noticiário e sem discussões nas redes sociais.

A terça se encerraria com 132 assassinatos, mortes também a granel, a maioria em bairros de periferia, com pouca infraestrutura. O perfil da maioria das vítimas, homens, jovens e negros, também não despertavam o interesse geral ou as manchetes, como se fossem mortes esperadas, assimiladas aos costumes nacionais.

Na quarta-feira, uma tragédia familiar, ocorrida pelo disparo acidental de uma arma de fogo, atingiu na nuca Guilherme Santos, um menino de 9 anos, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. O padrasto do garoto estava colhendo frutas com o menino no sitio. Foi manusear uma pistola calibre 12 do caseiro, que disparou.

Os pontinhos começavam a pintar o mapa de vermelho. Mulheres e crianças são presas vulneráveis. Entre os homens, tudo é mais complicado Eles são os maiores predadores e as principais presas, como se disputassem uma corrida para ver quem chega ao topo da cadeia alimentar. Acabam morrendo no caminho. Em três dias, os homicídios já haviam ultrapassado os 400 casos, número semelhante ao total de vítimas produzidas ao longo de duas décadas pela Ditadura Militar.

Anualmente, o Brasil registra cerca de 60 mil homicídios. Somos o país do mundo onde mais se mata, mesmo sem conflitos étnicos, políticos ou religiosos. Essas informações, verdades constrangedoras, parecem não comover a opinião pública, que aprendeu a conviver com tantas mortes, como se fossem invisíveis.

Conforme a apuração era feita, o leitor mais atento podia perceber um número excessivo de matérias sobre violência sendo publicadas naquela semana, mesmo sem destaque, com breve relato do ocorrido. O objetivo, contudo, não era transformar a home do G1 em um painel desalentador desse massacre cotidiano.

Quando se trata de violência, dependendo da abordagem, o excesso de informação pode ser um tiro pela culatra. Os programas popularescos de televisão fazem sucesso com a super-exploração de alguns desses casos, que apelam para um entretenimento mórbido e reforça a sensação de medo de uma população que já se sente vulnerável.

O medo paralisa, não produz reflexão, não aprimora o debate, nem ajuda a produzir soluções de políticas públicas. Arma os espíritos para a guerra, abre espaço para o surgimento de tiranias privadas, pessoas que se armam, se organizam e prometem mais violência para retomar o controle perdido e resolver o problema.

O jornalismo conseguiria motivar a reação das autoridades para enfrentar essa tragédia? O Monitor da Violência, com uma série de coberturas a serem produzidas ao longo deste e do próximo ano, busca alcançar esse objetivo, mesmo admitindo seriamente os riscos de fracassar.

Na quinta-feira, um tipo quase padrão de assassinato, que predominou ao longo da apuração, voltaria a chamar a atenção: os casos com características de execução. Neste tipo de ocorrência, o autor chega ao local do crime, sozinho ou em grupo, com o objetivo de matar o desafeto e depois fugir. Age, muitas vezes, de noite ou de madrugada, quando não há testemunhas. Apenas o corpo é encontrado com furos de bala de manhã.

Durante a noite, em Nísia Floresta, na Grande Natal, por exemplo, onde fica a Penitenciária de Alcaçuz, Raul Victor de Carvalho Silva, um jovem de 20 anos, foi morto a tiros enquanto dirigia sua moto. Ele foi perseguido por dois garotos que estavam em outra moto que dispararam três vezes nas costas de Raul antes de fugirem. Independentemente dos motivos, os assassinos haviam decidido que Raul deveria morrer. Depois, foram à caça e o executaram.

Esse tipo de procedimento significa que boa parte dos autores não age por impulso. Eles matam e sabem o que fazem. Naquelas circunstâncias em que praticaram o homicídio, enxergavam o assassinato como um instrumento para resolver seus conflitos, como a melhor solução para seus problemas.

Essa crença compartilhada por indivíduos ou grupos de que os assassinatos fazem parte de seu repertório de escolhas cotidianas produz um efeito multiplicador, presente nos bairros mais violentos do Brasil. Cada homicídio tem a capacidade de produzir vinganças, criando uma engrenagem que se retroalimenta.

Podem ser grupos ligados a gangues prisionais, desde os mais novos, como a Família do Norte, do Amazonas, e os Guardiões do Estado, do Ceará, aos mais tradicionais, como Comando Vermelho, do Rio, e o Primeiro Comando da Capital, de São Paulo. Em comum, todos são financiados pelos lucros do tráfico de drogas. Facções rivais podem ser formadas por policiais e seguranças privados que, quando se fortalecem, tendem a criar milícias e lucrar com a insegurança, desrespeitando as leis e chantageando governos.

Conforme a semana caminhava para o fim, dois conjuntos de estados brasileiros começariam a se destacar entre os mais violentos. De um lado, Rio Grande do Norte (64) e Ceará (com 127 mortes, era o primeiro lugar), que ainda sofriam os desdobramentos dos conflitos entre as gangues prisionais do começo do ano. O Amazonas também via os reflexos das disputas aparecerem nos crimes cotidianos, acompanhados de rituais macabros.

Na madrugada da sexta-feira, 25 de agosto, um corpo não identificado, enrolado em um saco plástico, foi encontrado num terreno baldio do bairro de Santa Etelvina, em Manaus, com marcas de tortura. A vítima foi espancada nas mãos, pernas e cabeça, teve os olhos e nariz arrancados e morreu estrangulada, com uma corda no pescoço. Ao lado do corpo, havia um bilhete com frases e siglas de facções criminosas. “Sal nos safados, PCC é sal FDN e CV puro”.

No segundo grupo estão os estados que tinham implantado políticas de segurança públicas bem-sucedidas na redução de homicídio e que viram seus modelos desmoronarem, como Rio de Janeiro, Espírito Santo e Pernambuco. Este último, por exemplo, foi o estado com a segunda maior quantidade de mortes na semana – 95 mortes. Entre os anos de 2008 e 2013, o estado vinha tendo quedas consistentes nas taxas de homicídios com o Pacto pela Vida, uma série de ações integradas para diminuir os homicídios no Estado. As mudanças políticas, em 2014, e a fragilização da autoridade estadual, parecem ter dado o sinal para que a volta da lei do mais forte.

Sábado e domingo. 26 e 27 de agosto. Com a chegada do final de semana, a velocidade dos homicídios aumenta, aproximando-se dos 400 casos em dois dias, principalmente nas madrugadas. Os alvos estão nas ruas, circulando. Os assassinos podem encontrá-los mais facilmente. Dentro das casas, por causa da bebida, mulheres e crianças ficam mais vulneráveis à violência de homens da própria família.

Num episódio marcante, que virou manchete, na manhã de sábado, o policial Fábio Cavalcante e Sá, de 38 anos, foi alvo de 11 tiros por homens que dispararam contra ele num carro em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Fabio era o 100º policial morto no Rio de Janeiro no ano, a maior média em mais de dez anos.

Dois dias antes, na quinta, o subtenente Mabel Sampaio, de 53 anos, morreu em São Gonçalo ao reagir a um assalto. Na terça, dia 22 de agosto, o morto tinha sido o cabo Thiago Rodrigues da Silva, de 32 anos. Seu corpo foi encontrado em seu carro em Nova Iguaçu. O colapso do governo e das Unidades Policiais Pacificadoras parece que suspenderam a validade das regras. Recomeçava a corrida para alcançar o topo da cadeia alimentar na selva de pedra.

No domingo, os assassinos não descansaram, do Rio Grande do Sul ao Amapá. As manchas vermelhas continuavam a acender no mapa e seguiriam assim indefinidamente – talvez por anos, enquanto o problema não for assumido. O corpo de um homem é encontrado no lixão do Distrito Federal. A polícia de Goiás mata um suspeito de roubo no comércio da capital. Rafael, de 15 anos, de Bujari, no Acre; Thanydia, de 21 anos, de Maceió; Alan, de 14 anos, em Vitória da Conquista; Eduardo, de 18 anos, de Itaboraí, no Paraná; Marco Antônio, de 16 anos, em Jaguariúna, São Paulo. O que seria da vida desses jovens se não fossem assassinados?

O Projeto do Monitor não tem respostas, mas quer que a sociedade não desista de se fazer essas e outras perguntas. Hierarquizar as pautas do debate público é tarefa nobre do jornalismo, que tem novas ferramentas tecnológicas para dialogar, com o apoio a academia. Mesmo que para convencer os governos e falar do óbvio. Para controlar os homicídios, as autoridades precisam de sabedoria, civilidade, inteligência, e até de força, desde que legal. Violência, pelo contrário, apenas produz mais violência.

 

Vitor Blotta e Bruno Paes Manso, coordenador e vice-coordenador do JDL, também fazem parte do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que acaba de firmar parceria com o G1 para criação do Monitor da Violência.
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