Louise Bourgeois foi uma artista plástica americana e francesa de grande impacto durante o século XX. Seu trabalho foi profundamente influenciado pelas suas experiências pessoais, retratando em suas produções claras evidências que remetiam às suas relações interpessoais e às consequências disso em sua vida.

Mudou-se de Paris para Nova York muito jovem, e ela mesma definiu-se como a “garota francesa foragida em Nova York”, o que classificou como “assustador e estimulante” em rara entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Os temas de sua obra iam desde a feminilidade, a introspecção, as relações amorosas e familiares, suas inseguranças, medos e desejos. Na mesma entrevista, disse que suas obras eram “retratos de relacionamentos”, destacando a sua mãe como o principal relacionamento em sua vida. É mais conhecida por suas esculturas gigantes que já passaram por diferentes lugares, dentre elas, uma aranha de 10 metros cujo título quer dizer ‘mãe’ em francês. As aranhas, inclusive, eram algo recorrente em sua obra. O animal representava para ela uma figuração de sua própria mãe, a quem a artista considerava sua melhor amiga e alguém que a protegeu de diversas formas. A aranha simbolizava essa proteção e, além disso, por serem animais muito inteligentes e perspicazes, também englobava características que a artista via em sua mãe.

imagem 1

​Maman – 1999 – Aço inoxidável, bronze, mármore ​
Sem Título, nos. 7 e 16 de 36, da série: Frágil (2007)

É possível notar, também, nas imagens da direita, um traçado que poderia ser relacionado a uma certa infantilidade, o que pode refletir uma noção de remetimento à infância, à inocência e uma forma de homenagem a um período em que sua mãe cumpriu um papel de extrema importância para a consolidação futura da artista.

Quando questionada sobre as constantes aparições de aranhas em suas produções, além do grande tamanho das esculturas, Bourgeois foi simples e enfática ao responder: “Minha obra é um reflexo de um relacionamento (…) Como as aranhas representam a minha mãe, elas são grandes porque para mim ela era um monumento” e complementando em outro momento: “As aranhas. Por que as aranhas? Porque minha mãe era deliberada, inteligente, paciente, calma, razoável, delicada, sutil, indispensável, pura e tão útil quanto uma aranha.”

Extravasão pessoal

 A figura de seu pai também a inspirou, mas talvez de uma  forma  mais  obscura. A infidelidade dele perante a mãe de Bourgeois era constante e isso causava diversos danos à convivência familiar e à própria artista   jovem.

A Destruição do Pai (1974)

A escultura acima apresenta uma visão muito íntima da vida da artista. Retrata um “pai” rodeado por “crianças”, numa disposição que pode ser interpretada de duas formas. Segundo Bourgeois “as crianças seguraram o pai e o colocaram na mesa. E ele virou a comida. Eles o despedaçaram, o esquartejaram. Comeram ele. E assim ele foi liquidado… da mesma forma que liquidou suas crianças. A escultura representa uma cama e uma mesa”.

O pai de Bourgeois era uma figura muito polêmica em sua vida familiar, por ser muito imponente mas não confiável, mantendo um relacionamento amoroso com a babá da família. Essa peça, então, representa dois locais importantes de uma casa. A cama, um lugar de intimidade, que na obra de Bourgeois é representada de forma grotesca, corrompida pelo que o seu  pai  faz ao dividir a cama com a mãe de seus filhos e com a amante. A mesa, um lugar mais público  do  que  a  cama,  representa a convivência familiar e também, no caso de  Bourgeois,  pode  aparecer como a convivência com a babá. A mesa, segundo ela, é o local “onde seus pais te fizeram sofrer”. Dessa maneira, os filhos “destroem” o pai da mesma forma que ele corrompeu sua família, sendo sua própria  culpa.

É possível, ainda, notar as relações íntimas de Bourgeois com a psicanálise, uma vez que essa obra em específico dialoga com as teorias de Freud, relatando uma inversão em suas proposições. Os filhos (ou, no caso dela, a filha) representados não desejam eliminar a mãe e estar com o pai. Esse vínculo se rompeu, foi corrompido, vindo dos próprios filhos a vontade de exterminar seu pai e possivelmente proteger sua mãe, da mesma forma que ela os protegeu.

A arte como intermediário entre o interno e o externo

Seu trabalho pode ser visto por vezes como melancólico, uma vez que trata sobre traumas dos seres humanos e muito especificamente, das mulheres. Além disso, a artista lidou por muitos anos com graves problemas de depressão, frequentando análises psicológicas por mais de trinta anos. Algo muito interessante é que, ao longo do tempo, registrou suas impressões sobre a própria psicanálise e sobre sua vida em geral.

 

Insônia (2000) e Autorretrato (1990-94)

Em uma reportagem feita também pelo jornal The  Guardian,  revelaram-se, após a morte da artista, diversas anotações feitas por ela, muitas vezes de maneira informal e rápida. Nelas, apontava seus medos: “Tenho medo  do  silêncio/  tenho medo da escuridão/ tenho medo de cair/ tenho medo da insônia/ tenho medo de me sentir vazia”; suas inseguranças: “De me machucar/ medo de me machucar/ de machucar alguém antes de ser machucado/ o que machuca?”; respondendo à suas próprias  perguntas:  “ser  abandonada/  ser  criticada/  ser  atacada/  receber   muitas perguntas/ ser usada/ ser rejeitada” e seus sentimentos pela psicanálise: “A análise é um trabalho/ é uma armadilha/ é um privilégio/ é um luxo…é uma piada/ me deixa impotente/ me torna um policial/ é um sonho ruim”.

I wanted to love you more, I lost you e And so I kissed you (2009-2010) – Louise Bourgeois e Tracey Emin

As obras acima pertencem a uma série de composições desenvolvidas por Bourgeois e Tracey Emin, artista contemporânea conhecida pelas suas obras de tom confessional e pessoal. Nelas é possível observar uma série de representações sobre a mulher em diferentes contextos, incluindo aquele da maternidade, mas também abordando em outras peças o contexto sexual, de desejo, e incluindo também a figura masculina nesse processo. A série tem como título Do Not Abandon Me (tradução livre: Não Me Abandone), uma viagem pessoal sobre as concepções da artista em relação ao universo das relações entre homens e mulheres e da própria mulher consigo mesma. Em muitas delas, seria possível interpretar também um aspecto de certo sofrimento, devido à forma como as figuras estão retratadas e às frases que acompanham todas as obras, nesse caso colocadas por Tracey como forma de “identificar o sentimento expresso pela composição”.

A mulher grávida, símbolo de fertilidade e grande simbolização do universo feminino, aparece com frequência, porém, muitas vezes associada a frases de conotação mais obscura, como “Eu te perdi” ou “Queria ter te amado mais” (ambas acima). Isso poderia revelar o tom de ansiedade muito recorrente em sua obra e especificamente nessa série. O medo de “abandono e perda” foram destacados pela galeria internacional Hauser & Wirth, quando as obras foram expostas em uma de suas unidades localizada em Londres. Quando conectado com seu histórico familiar confuso e traumático, obtém-se uma possível sensação de que esses medos se refletem agora na Bourgeois adulta e com a possibilidade de maternidade, poderiam ser projetados na vontade de consolidação familiar e sua insegurança quanto a isso.

A figura masculina, quando retratada na série, adota uma conotação mais erótica, refletindo desejos e vontades das artistas. As composições a tinta foram inicialmente feitas por Louise, que as carregou com ela por um tempo, mas “não tinha coragem de tocá-las”, até que Emin decidiu se juntar ao projeto e complementou com figuras menores, agregando significância.

“Minha arte é uma forma de restauração”

Observando os diferentes tipos de obras produzidas pela artista, é possível observar sua grande diversidade e sua conexão com assuntos de forte intimidade com a experiência humana, dialogando com vários aspectos que permeiam a vida de qualquer ser humano: tristeza, dor, perda, ansiedade, relações interpessoais, medo, amor, família, desejo. Sua obra se torna uma ampla experiência psicológica e de descobrimento pessoal, na qual a arte faz o intermediário para evidenciar, enfatizar e restaurar ou reparar (como disse a própria artista) sensações e sentimentos que podem ser deixados de lado na vida cotidiana.

Daniel Medina

O texto foi escrito e entregue como trabalho final para a disciplina de leitura e produção textual, lecionada pelo professor Vitor Blotta para os alunos do primeiro semestre de jornalismo da ECA-USP. O texto não foi editado.

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