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O primeiro seminário teórico do ano realizado pelo Jornalismo, Direito e Liberdade aconteceu na última quarta-feira, 26 de abril, e contou com a exposição de Vitor Blotta e Camilo Vannuchi, além da participação de Eduardo Nunomura como debatedor.

O seminário foi aberto por Camilo com uma breve exposição de textos de Bernard Miège, Celso Lafer e Bill Kovach & Tom Rosenstiel, levantando a questão da crise no fazer jornalístico, colocada em pauta no ano 2000, nos Estados Unidos, pelos chamados “Fórum dos jornalistas preocupados”. Estes jornalistas se perguntavam, na ocasião, o que acontecera com o jornalismo desde o caso Watergate e porque o jornalismo passou a ser odiado e perdeu progressivamente a credibilidade entre os leitores. Concomitantemente, o jornalismo cada vez mais se firmou dentro da lógica mercadológica e passou a trabalhar em função do capital, tendendo para entretenimento e despreocupando-se com a qualidade do conteúdo. O leitor deixou de ser o patrão e a profissão tornou-se submisso ao mercado. Vannuchi também levantou alguns outros dilemas presentes no cotidiano das grande redações, como a dificuldade em conciliar os interesses públicos e a linha editorial do veículo aos interesses dos anunciantes. Haveria alguma forma de atender aos dois lados sem precisar da tradicional separação Igreja/Estado?

Logo em seguida, o professor Blotta continuou a exposição trazendo uma outra perspectiva: a posição do jornalista e seus compromissos perante à sociedade, debatendo qual seria sua função social. Para isso, ele utiliza alguns conceitos presentes na obra Política como Vocação, de Weber. A tensão entre as ideias de vocação ou profissão, que no texto faz referência à política, é também perfeitamente aplicável ao exercício do jornalismo. Os “tipos de políticos” estariam também presentes no jornalismo. Ele menciona o fato do jornalista político ser hoje desdenhado na maior parte do tempo, por se presumir que na verdade este seria um “publicista político”. Novamente, coincide com a ideia apresentada por Vannuchi de que o jornalismo estaria perdendo sua credibilidade. A profunda relação entre democracia e imprensa também é apresentada, e o surgimento da liberdade de imprensa é posto como co originária com a censura.

Eduardo Nunomura levantou alguns exemplos práticos que evidenciam todas as contradições dentro da profissão levantadas por Blotta e Vannuchi atreladas à atuação do jornalista enquanto vigilante do poder em alguns casos de grande repercussão, como a operação Boi Barrica e o caso das pedaladas fiscais durante o governo Dilma. Perante seu papel social, o jornalista deveria se orientar pela ética da responsabilidade ou pela ética da convicção? E os políticos, poderiam se sentir livres para mentir em casos de administração pública quando o fim for manter a estabilidade da nação?

O professor Eugênio Bucci também contribuiu para o debate levantando alguns pontos relativos a essa última questão, e levantando também o debate acerca da verdade factual. Ele traça um paralelo com Hannah Arendt ao mencionar a ideia da verdade factual como lastro da atividade política, e contrapõe também ao pensamento socrático que colocava como válida a “mentira piedosa”. Bucci menciona também o conceito de estadista, que seria o político que baseia-se na ética da responsabilidade e age sempre em prol do bem do Estado, ainda que isto se contraponha às suas convicções pessoais. Por fim, voltando à atuação do jornalista, ele menciona a ideia de que este seria o demagogo moderno.

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Bruno Paes Manso, jornalista e membro do JDL, também trouxe importantes contribuições para a discussão ao contrapor algumas ideias apresentadas anteriormente situando o conceito de jornalismo e política na lógica democrática. Segundo ele, não é possível traçar um perfeito paralelo com as questões postas por Weber justamente por se tratar de uma boa obra escrita em um contexto de recém democracia, na qual ainda não era considerado o diálogo da autoridade com o povo. No atual contexto, em que há esta troca e a população exerce muito mais influência sob os governantes, o papel do jornalista passa a fazer muito mais sentido e se torna essencial para que este diálogo se estabeleça. Bruno também retorna à questão levantada pelo professor Bucci acerca de verdade factual, mencionando o quão difícil é se falar neste termo no Brasil, uma vez que há uma tradição de se abstrair o tema aqui. Isso resulta, obviamente, em uma dificuldade dos jornalistas em assumir seus papéis de fiscalizadores da verdade. É pontuado em sua fala, por fim, a dificuldade em adequar as narrativas para que as notícias cheguem até a população de forma clara, e os veículos que se prestam à esta função, como a revista Piauí, atinge uma minúscula parcela dos cidadãos.

O debate foi encerrado em torno da discussão levantada por Karina Yamamoto de qual seria o perfil do jornalista hoje e como este se situa dentro da lógica mercadológica das grandes redações e acaba sendo engolido por esta sem conseguir desempenhar com destreza seu papel social.

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